Malvino Salvador: viciado em adrenalina

Até os 25 anos, Malvino Salvador levava uma vida tranquila em Manaus, trabalhando como atendente de banco enquanto concluía o curso de contabilidade. Viciado em adrenalina, assim que o convite para uma aventura bateu à porta ele não pensou duas vezes: largou tudo e foi pra São Paulo tentar a sorte como modelo. Parece que deu certo.

 

 

O ano era 1991 e a cidade, Manaus, no Amazonas. Malvino Salvador curtia seus 15 anos e levava os estudos daquele jeito, digamos, leviano. Até o dia em que um episódio aparentemente cotidiano deu uma mexida na direção do seu futuro. “Um amigo me disse que havia entrado para uma agência de modelos e mostrou uma foto, abraçado com várias gatinhas. Eu, com os hormônios a mil, pedi para ele me apresentar a elas e ao dono da agência”, lembra Malvino, rindo. Claro que a estratégia deu certo. A carreira de modelo foi curta, mas a lista de meninas lindas beijadas realmente aumentou. “Foi só uma fase, que durou até os 18 anos”, conta. “Cansei do negócio. Não dava dinheiro.”

 

Na época em que saiu da agência, Malvino percebeu que precisava se dedicar a “ser alguém” na vida. Decidiu levar os estudos a sério e optou por um curso que envolvesse cálculo, sua principal habilidade. “Eu não sabia direito o que queria, então escolhi contabilidade. Virei um dos melhores alunos da turma da faculdade e comecei a trabalhar em banco. Minha vida era muito diferente do que é hoje”, descreve o manauara, jamais imaginando que seria ator. Se alguém dissesse que o estudante de contabilidade e atendente de banco seria galã de novela da TV Globo, provavelmente ele soltaria sua típica gargalhada alta e surpreendente. Mas, aos 24, essa história de modelo apareceu mais uma vez.

 

Salvador encontrou o dono da agência de modelos no shopping, que o convidou para um grande desfile que aconteceria ali mesmo. “Eles estavam pagando um cachê de 500 reais. Isso pra mim era ótimo”, afirma. Entre os vários modelos, alguns eram de São Paulo e estavam acompanhados de uma booker. Ela gostou do que viu e convidou Malvino para virar modelo na capital paulista. “Sempre tive uma vida confortável, mas sem risco. Nunca fui rico, mas nunca faltou nada. Morava com meus pais. Trabalhar como modelo não era meu sonho, mas quis me aventurar. No mínimo, ganharia mais conhecimento”, expõe.

 

Como acontece com a maioria dos modelos recém-chegados em São Paulo, as propostas de trabalho não caíram do céu. “Os três primeiros meses foram bem difíceis. Fui pingando de casa em casa até conseguir reunir quatro pessoas para dividir apartamento. Aí, sim, foi uma das melhores épocas da minha vida”, diz. A rotina ficou divertida, mas a conta bancária continuou parada. Os pais mandavam dinheiro para o filho seguir a aventura. Com 1,79 metro de altura, Malvino recebia pouquíssimas propostas para passarela. A maioria era para foto e vídeo publicitários. Para ficar mais à vontade nos testes e diminuir o nervosismo, ele foi atrás de um curso de interpretação.

 

O futuro artista viu um anúncio no jornal indicando a inauguração da Escola de Atores Wolf Maya. Foi correndo se inscrever. “Eles estavam selecionando atores e bailarinos para o musical “Blue Jeans”. Viram minha foto e ligaram para saber se eu queria fazer o teste. Perguntaram se eu dançava e cantava. Respondi ‘sim’ pra tudo”, lembra Salvador, rindo de suas pequenas mentiras. Aprovado no teste, os ensaios começaram e ele instantaneamente descobriu o que gostaria de fazer para o resto da vida. “Se aquilo era uma profissão, ótimo! O processo de criação artística me fascinou muito. Além disso, a adrenalina do teatro é parecida com a adrenalina da competição esportiva, o que sempre gostei”, explica o ator, envolvido desde criança com natação, judô e jiu-jitsu.

 

Não tão de repente, tudo mudou

Ainda não foi dessa vez que Malvino ganhou algum dinheiro. A peça ficou quatro meses em cartaz, porém os pais continuaram dando aquela forcinha lá de Manaus. Mas ele começou a estudar muito, muito mesmo. “Li livros sobre dramaturgia, sobre história do teatro. Entendi quem eram os grandes nomes, estudei obras de Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht, Eugênio Kusnet, Stanislavski e tantos outros. Fui entrando nesse novo ambiente”, detalha. Foram três anos e meio dedicados aos estudos, ao curso de teatro e, paralelamente, à vida de modelo, que começava a dar um retorno financeiro.

 

Até que, em 2004, Malvino foi chamado para fazer o teste da novela das 6 da TV Globo, “Cabocla”. “Fui sem medo e passei. Quando recebi a sinopse do personagem Tobias, um peão, na hora identifiquei um arquétipo que poderia dar certo. Meu avô morava em roça, meu pai foi criado lá e eu visitava o lugar com frequência durante a infância. Embarquei nessa e fui seguro de que daria tudo certo”, aponta. O ator mudou-se para o Rio de Janeiro e não saiu mais de cena. De lá pra cá, foram oito novelas. Depois do Tobias, da “Cabocla”, vieram o cozinheiro Vitório (“Alma Gêmea”, 2005), o vilão sedutor Camilo (“O Profeta”, 2006), o boxeador Régis (“Sete Pecados”, 2007), o operário Damião (“A Favorita”, 2008), o dogmático Gabriel (“Caras & Bocas”, 2009), o carismático Quinzé (“Fina Estampa, 2011) e o protagonista Bruno (“Amor à Vida”, 2013).

 

Entre tantos trabalhos, Malvino fez uma pausa em 2010 para dedicar-se a um projeto pessoal, resultado de uma ideia que havia iniciado anos antes. Logo depois da “Cabocla”, sua primeira novela, o ator começou a ler uma peça de teatro por semana, até encontrar “Mente Mentira”. “Me identifiquei muito. O texto lidava com aspectos muito masculinos que eu queria tratar. Como a peça tinha oito atores, eu precisava de investimento. Foram cinco anos até conseguir estrear o espetáculo”, diz Salvador, que extrai aprendizados de cada trabalho. Na televisão, o tempo de estudo e preparação é curto. “A TV é uma obra aberta. A trama vai sendo construída ao longo do processo. Já no teatro, a história tem começo, meio e fim. Você pode estudar essa trajetória”, compara.

 

Quando não está trabalhando, dificilmente o artista liga a televisão para assistir novela. Seu foco como espectador está no teatro e no cinema. “Tenho assistido cada vez menos novela. O formato precisa se renovar. As emissoras e os autores estão começando a perceber isso e existe uma movimentação para mudanças. Não acredito que a novela vá morrer, mas precisa ser repensada”, analisa o fã de “Game of Thrones”, série exibida pela HBO. “Não deixa de ser uma novela, porém com alto investimento, poucos capítulos e muito tempo de produção. Vejo as minisséries brasileiras com potencial de contar bem uma história. Esse é o caminho”, ressalta.

 

Desde o início do ano, após o fim da novela “Amor à Vida”, Malvino fez mais uma pausa para subir aos palcos. No dia 10 de outubro, estreou o espetáculo “Chuva Constante - A Felicidade é Fora da Lei”, no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro. Sucesso da Broadway, o texto do americano Keith Huff, autor de alguns episódios das séries “House of Cards” e “Mad Man”, é dirigido por Paulo de Moraes. “Esse é o maior desafio da minha carreira. É um ‘duólogo’”, aponta Malvino, referindo-se ao fato de haver apenas dois personagens em cena: o policial Denny, interpretado por ele, e seu colega Joey, vivido por Augusto Zacchi. A crítica já está aplaudindo de pé. A princípio, a peça fica em cartaz até dezembro, no Rio. Mas, se o sucesso continuar, permanece até fevereiro, emendando com a temporada de São Paulo, que começa em março.

 

Agora em novembro, Malvino começa a filmar “Qualquer Gato Vira Lata 2”, continuação da comédia romântica que levou 1,1 milhão de pessoas aos cinemas, em 2011. A produção contará com o retorno do diretor Tomas Portella, além dos atores Cléo Pires, Dudu Azevedo e o próprio Malvino Salvador. “Adorei fazer o primeiro filme. Foi um sucesso e acho que esse vai ser bacana também”, comenta. Mas nenhuma conquista profissional supera a emoção de ser pai. No dia 8 de setembro, nasceu sua segunda filha, Ayra, fruto do relacionamento com a lutadora de jiu-jitsu Kyra Gracie. O artista também é pai de Sofia, de 5 anos, filha de Ana Ceolin. “Sei que é clichê, mas o amor de pai é muito poderoso. É único. Faz com que a gente queira estar vivo”, emociona-se.

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Publicado em:

Fotografia Marcelo Faustini

Novembro de 2014, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra

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