O canto de Maria Casadevall

Pensamentos profundos acompanham Maria Casadevall em suas andanças a pé e de bicicleta pelas ruas de São Paulo. A atriz está sempre buscando cantinhos reservados em cafés ou nos grandes estúdios de gravação e se encanta com as pequenas poesias da vida – uma espécie de Amélie Poulain do mundo fora da ficção.

 

Enquanto o mundo acontece “aqui fora”, Maria Carolina Casadevall Gonzaga constrói um mundo particular dentro de seus pensamentos, criando uma realidade com jeitinho de Maria – ou Carol, como os familiares estão acostumados a chamá-la. A atriz, que completa 29 anos agora em julho, está sempre pedalando sua bicicleta branca com cesto de vime pelo centro paulistano e foi nesse ritmo que ela chegou ao prédio de 1930 onde o consagrado artista Di Cavalcanti viveu décadas atrás. Um dos novos moradores do edifício art deco é a Leica Gallery, onde a atriz posou para estas fotos e mostrou sua sensibilidade pelas urbanices de São Paulo.

 

Com cabelo bagunçado e franja repicada, short desfiado por cima da calça legging e camisetão, Maria coloca a música para tocar em seu celular a fim de dar mais vida ao ambiente e cantarolar bons sambas. A banda de seus amigos, “Pitanga em Pé de Amora”, dá a leveza que a paulistana busca para si e a embala a acompanhar em voz alta trechos que sabe de cor. “É um rio em correnteza, é um barco sem direção”, canta Maria, enquanto Duda Molinos pinta os olhos famosos por explodirem sentimentos de diferentes personagens do teatro e da televisão.

 

Sua vida tem um quê do tal barco sem direção da música. Poucos dias depois da seção de fotos, um segundo encontro, mais reservado, foi marcado em uma doceria perto da casa de Maria. Ela estaciona sua bicicleta branca na entrada, pede um brigadeiro para adoçar seu café e conta sobre a falta de habilidade para fazer planos de vida. “Vou seguindo uma lógica muito minha. Não fico pensando onde quero estar daqui a três anos”, comenta a atriz, traçando um paralelo entre essa dificuldade de prever o futuro e o fato de não conseguir resgatar a ordem de lembranças do passado.

 

Da infância que aconteceu pelos arredores da Rua Maria Antônia, que os Correios dizem ser bairro Vila Buarque, mas todos chamam de Centro de São Paulo, a atriz se lembra da vontade de vasculhar o segredo das coisas e de transformar a realidade ao seu redor. “Essa é uma procura que existe desde cedo de maneira intuitiva e que permanece até hoje. Antes eu não tinha clareza sobre isso, mas agora sei que existe algo além do que vivemos”, afirma a observadora do mundo e das pessoas. “Passo horas olhando uma pessoa e buscando pequenas poesias no cotidiano, como um desenho na xícara de café”, diz.

 

Se um dia Maria sonhou em ser astronauta para acessar o desconhecido, hoje ela vasculha outros mundos pela leitura, escrita, dança, canto e interpretação. A entrada no teatro aconteceu por acaso, consequência de um ensaio amador que fez com um amigo fotógrafo. “Vamos fazer umas fotos. Você tem um rosto legal”, disse o profissional. “Será?”, estranhou a então adolescente de 15 anos, sem entender o interesse em suas sobrancelhas enormes que lhe deram o apelido de Monteiro Lobato, sua desengonçada altura de 1,76 metro, além de se enxergar, na época, com uma cabeça e rosto grandes e desproporcionais.

 

Para sua surpresa, as fotos resultaram em alguns comerciais de televisão que a levaram a um workshop de interpretação para cinema com o diretor Fernando Leal, que ministra esse curso até hoje. “Me apaixonei por ele – que é um cinéfilo inveterado – pelo curso e pelo cinema. Comecei a entender as particularidades humanas e a individualidade de cada um, entendendo que o mundo é incrível porque as pessoas são extremamente diferentes umas das outras”, expõe a atriz, se apaixonando pelas suas aparentes esquisitices – desde as físicas até as mais subjetivas. “Sempre tive um apreço pela solidão, que era difícil de entender quando mais nova”, completa.

 

O dia em que virou atriz

No primeiro ano da faculdade de jornalismo, Maria conheceu o pessoal que fazia teatro na Praça Roosevelt, região efervescente do centro paulistano que reúne várias companhias de teatro. A estudante passou a frequentar a praça e a conhecer o trabalho d’Os Satyros. Conciliando a faculdade e um emprego como vendedora em uma loja de roupas, ela se matriculou em um curso de teatro com o diretor Jair Assunção. No meio disso tudo, Maria decidiu morar três meses na Austrália, acabou ficando um ano e voltou convicta a trancar a faculdade e a viver do palco. “Entendi que queria preservar a escrita de forma amadora, sem profissionalizar”, reflete.

 

Maria entrou para Os Satyros e, em 2011, estreou em uma série da TV Globo, “Lara com Z”, de Aguinaldo Silva. “Minha participação era pequena. Foi uma experiência legal para ver como a televisão funcionava. A série passava uma vez por semana em um horário alternativo, gerando uma visibilidade baixa. Isso foi bom para mim porque era meu começo. O Projac é um dragão de dez cabeças para quem faz teatro na Praça Roosevelt!”, compara a atriz, que até hoje ri da primeira vez em que entrou na “cidade de estúdios” da Globo. “Dizem que eu parecia um coelho acuado, com minha calça de moletom, minha mala na mão e um maço de jornal embaixo do braço”, brinca.

 

Dois anos depois, em 2013, Maria conquistou fama nacional com a personagem Patrícia, de “Amor à Vida”, e, passados mais dois anos, foi a vez de dar voz à Margot, de “I Love Paraisópolis”. Entre uma gravação e outra, a atriz protagonizou a mulher que se muda para o apartamento vizinho do ex-marido na minissérie da GNT, “Lili, a Ex”, que encerrou a segunda temporada em maio deste ano. “Na minha opinião, as duas temporadas foram complementares e estão redondas. Acho que se fôssemos embarcar em outra travessia poderia ser um longa-metragem”, pondera.

 

A engrenagem da televisão e o ritmo acelerado de decorar falas e gravar sem os longos ensaios do teatro já faz parte do ser Maria. Ainda assim, cada vez que ela senta em um canto do Projac ou se esconde em um cenário apagado para mergulhar em seu mundo, alguém se assusta com a cena inusitada. “Maria, aqui não é a Praça Roosevelt!”, ela ouve dos colegas. A concentração é fundamental para seu bom desempenho nas telas. “O ritmo da televisão é industrial. É um rolo compressor mesmo. Procuro preservar uma atmosfera de concentração e até um pouco ritualística. Assim que entro no carro em direção ao estúdio, já escolho uma música que tem a ver com o momento. O figurino e a maquiagem também me preparam e são como um ritual”, relata.

 

O palco e as luzes do teatro fazem falta. Para não se sentir tão distante desse mundo, Maria aprendeu a buscar um olhar teatral sobre a vida. “O palco é algo meio místico. Sempre achei que quando tivesse que voltar, eu voltaria. Assim foi e assim está sendo”, comenta a atriz, que pisou pela primeira vez no tablado do Teatro Oficina, do lendário diretor Zé Celso, em março deste ano. Um grupo de amigos se reuniu para montar uma peça e arrecadar fundos para os tratamentos paliativos da colega d’Os Satyros, Phedra de Córdoba, uma transexual cubana de 77 anos que descobriu um câncer avançado no início deste ano.

 

“Quando vi, eu estava no palco do Oficina, um dos lugares mais emblemáticos da cena dramática, homenageando um ser grandioso, que admirava muito, com pessoas maravilhosas e artistas sensibilíssimos. Foi uma catarse. Tudo sem planejar. Sem pensar”, emociona-se. A falta de planos traz naturalidade aos seus movimentos. O teatro voltou de mansinho e o próximo projeto já está caminhando. Em parceria com a prefeitura de São Paulo, Maria, Letícia Sabatella, Pascoal da Conceição e Breno da Matta se reúnem sob a direção de Rodolfo García Vázquez para um projeto com refugiados haitianos no Brasil.

 

Além dos quatro atores, 12 haitianos farão parte do elenco do espetáculo, que será uma criação coletiva a partir das improvisações dos ensaios. “A situação do Haiti é precária desde 2010 por conta do terremoto, mas também devido ao embargo histórico que eles vivem desde a conquista da independência com a revolução dos escravos”, explica. A peça buscará os pontos em comum entre Brasil e Haiti, abordando também a crise de refugiados no mundo, que já superou até mesmo o período da Segunda Guerra Mundial. “Estamos vivendo um momento muito crítico de transformações. A energia do mundo está pulsando diferente. Não tem como não se sensibilizar. A dor do outro é a minha”, expõe.

 

Seu olhar vê cores mais fortes no mundo e Maria utiliza seu perfil na rede social Instagram como uma espécie de diário aberto, com provocações que assaltam seu dia a dia e são compartilhadas com quem acompanha seus posts. De política ao fim da cultura do estupro, temas espinhosos ganham voz na multidão. “A voz da pessoa pública tem mais visibilidade, então por que não procurar formas de se colocar? Sem ódio ou raiva. Não é para instigar um lado ou outro, mas para provocar diálogo. Afinal, entre todas as minhas certezas, o que mais restam são as dúvidas. Minhas certezas são poucas e bem questionáveis”, filosofa.

 

Muitos assuntos polêmicos chegam até a atriz durante seu momento sagrado de leitura diária. “Sempre procuro cantos e cafés para ler, ficar uma hora comigo, olhar as pessoas”, conta. Maria, que não é de acordar cedo, tem descoberto a beleza do amanhecer para vagar pela cidade e assistir às primeiras horas da manhã. Depois disso, ela curte um café preto e seu jornal, sem se esquecer de alongar o corpo, aquecer a voz e colocar uma música aleatória para tocar, como se para prever qual será a vibe do dia. “Isso é o que consigo seguir de rotina. Depois descamba tudo e é uma loucura atrás da outra!”, garante a atriz, sempre mordiscando o lábio para disfarçar sua timidez.

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Publicado em:

Fotografia Karine Basílio

Julho de 2016, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra

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