Rachel Maia é uma mulher brilhante

Com o sonho de trabalhar na indústria, Rachel Maia entrou para o mundo varejista sem ter planejado, ao ser contratada pela Tiffany. A profissional acabou aceitando a oportunidade, se apaixonou pelo setor de joias e, 16 anos depois, é um exemplo de gestão feminina de sucesso. “Se olharmos para a Pandora no mundo, sou uma das poucas mulheres no topo. Farei o que eu puder para empoderar mulheres”, garante.

No fim de uma tarde paulistana de verão que viu muita chuva, virou noite e voltou a ser dia, a presidente da Pandora no Brasil, Rachel Maia, acomoda-se em sua sala em um imponente prédio comercial do bairro Morumbi para contar sua história. Filha de um engenheiro de voo da Vasp e de uma mãe com o coração maior do mundo, que estava sempre socorrendo a vizinhança, a caçula de uma família de sete filhos tinha o sonho de seguir os passos do irmão mais velho na contabilidade ou desbravar o mundo como comissária.

O pai até tentou desviá-la da ideia da aviação, setor em que viveu por 36 anos. Ainda assim, Rachel tirou sua licença, foi aceita na Varig, mas nunca voou. “Tenho a licença até hoje, mas eu não caibo em um avião pequeno. Precisa ser de grande porte”, brinca a executiva, referindo-se ao seu porte de 1,83 metro de altura. Deixando o céu de lado, ela se formou em ciências contábeis na FMU — após o pai carregá-la pela orelha para fazer a matrícula já na última chamada — e começou a atuar na área.

No entanto, a vida profissional começou bem antes da faculdade, aos 15 anos, como monitora de um projeto jovem aprendiz em uma creche pública perto de casa. Depois veio a fase de estágio no antigo Banco do Brasil Cacex, até entrar para o time de contabilidade da 7-Eleven, que chegou a contar com 17 lojas brasileiras, mas fechou as portas poucos anos depois. “Fui a última funcionária do grupo. Fiz o desligamento de todos, fechei a operação e aproveitei o momento para passar uma temporada no exterior aprendendo inglês”, explica.

O valor recebido na rescisão foi todo investido nela mesma. Aos 28 anos e sem falar inglês, Rachel matriculou-se em um curso de inglês na University of Victoria, em Vancouver, e passou um ano e meio entre as praias e as montanhas cobertas por florestas e neve da cidade canadense. “Ou você agarra as oportunidades que passam diante dos seus olhos ou outra pessoa pode aproveitá-las por você”, observa a executiva, que em momento algum titubeou em interromper a carreira para buscar seu desenvolvimento pessoal.

De volta ao Brasil, a profissional atuou pouco mais de dois anos na área de lentes de contato da Novartis como gerente financeira e deixou o país de novo, desta vez para morar nos Estados Unidos. Foram seis meses em Miami, dois em Chicago, dois em Nova York e três em Nova Jersey. “Por ter começado a trabalhar muito cedo, cheguei muito rápido a cargos de liderança. Ainda assim, nunca tive medo de sair de uma gestão e voltar a ser auxiliar. Sair da diretoria e voltar a ser gerente. Eu queria acumular conhecimento e viver da melhor maneira possível dentro do meu ponto de vista”, aponta.

A segunda imersão estrangeira contou com vários cursos de aprimoramento na área contábil e uma coleção de ingressos do MET (The Metropolitan Museum of Art). Para Rachel, arte é como a Bíblia. “Você lê a mesma passagem em um momento diferente e pode ter um outro significado. É emoção”, descreve. Fissurada em arte, suas cores e expressões, a executiva transitava pelo quadrilátero do MET sempre que possível, aproveitando para visitar os demais museus que também ficam ao redor do enorme Central Park, em Nova York.

Seu período nada sabático acabou quando Rachel percebeu que era hora de voltar a trabalhar — leia-se voltar a ser economicamente ativa. Aproveitando a época natalina, a executiva veio ao Brasil visitar a família e ficou por aqui de vez. “Procurei um headhunter e pedi para ser recolocada na indústria. Esse era meu sonho e eu queria explorar o fato de ser uma contadora que falava inglês, o que era um diferencial na época”, expõe. O headhunter até agendou umas entrevistas no setor, mas insistiu para que ela se candidatasse à vaga de CFO da Tiffany no Brasil, que recém abrira uma joalheria no Shopping Iguatemi, a primeira da América do Sul.

Na data marcada, lá estava Rachel na Avenida Faria Lima, com sua elegante roupa de executiva, aguardando impacientemente que chegasse a sua vez da entrevista. “Quando finalmente entrei, a Laura Pedroso (então presidente da Tiffany no Brasil), me pediu para aguardar porque precisava resolver umas pendências na loja. Fiquei quase uma hora de molho. Eu já estava com má vontade e, naquele momento, parecia que tudo conspirava contra”, recorda Rachel, que acabou tendo uma longa e agradável conversa com Laura. Mesmo assim, nada que a fizesse desviar o foco da indústria.

Alguns dias depois, o telefone toca. Era o headhunter, avisando que a presidente da Tiffany gostaria de agendar mais uma entrevista. Pensando se tratar de simples esclarecimentos, Rachel compareceu à segunda etapa do processo seletivo, mas estranhou quando Laura comentou que ligaria para o CFO mundial. “Eu não sabia que participaria de uma call, mas falei que estava à disposição”, lembra. No entanto, enquanto se preparava para discorrer sobre seu currículo e interesses, foi surpreendida com a seguinte provocação: “Me conta um pouco sobre o que está acontecendo no mundo”, pediu o CFO.

“Foi uma pergunta estranhíssima, mas fantástica. Depois dessa entrevista, também faço esse questionamento para os candidatos que entrevisto. Você surpreende as pessoas”, comenta Rachel, que aceitou a proposta varejista depois de enrolar por uns dois dias. “Eu estava sem dinheiro no bolso, esperando minha oportunidade na indústria e fazendo ‘doce’ para a Tiffany”, diz, rindo. Os sete anos seguintes foram de grandes aprendizados ao lado da presidente Laura Pedroso, que acabou se transformando em uma de suas principais mentoras da carreira.

Até o dia em que a motivação vinda dos desafios diários começou a minguar. Depois de ajudar a empresa a se estabelecer e crescer no país, porém sem encontrar o próximo passo para se dedicar, a executiva aceitou uma proposta para comandar o processo de expansão da Pandora, marca de joias dinamarquesa que havia chegado ao Brasil no final de 2009. Em abril de 2010, Rachel assumiu o cargo de CFO, reportando diretamente para o CEO mundial. Oito meses depois, três testes de gravidez de farmácia insistiam em lhe dizer que havia uma criança a caminho.

Ser mãe solteira não a assustava, uma vez que Rachel já havia iniciado um processo de adoção. A surpresa veio do fato de ela saber que dificilmente teria um filho biológico devido a questões de saúde — até seu ginecologista estranhou — e da decepção que ela causaria para o seu presidente. “Fui contratada para transformar a marca em sucesso. Não dava para ficar grávida apenas oito meses depois!”, enfatiza.

Passados três meses, a executiva se armou de muita coragem para um almoço em Brasília com o seu presidente. Enquanto ele beliscava sua salada, Rachel soltou seu discurso frenético e ensaiado. “Eu gostaria de falar que estou grávida, mas não se preocupe porque estou colocando meu cargo à disposição. Pelas leis do Brasil não posso ser demitida, mas você me contratou para promover o sucesso da empresa e não estou cumprindo com minha parte”, lembra Rachel, imitando sua voz acelerada. Quando ela finalmente terminou de falar, o presidente pegou em sua mão e disse: “Calma. Vim aqui para te promover”. E, assim, o almoço terminou em um choro emocionado.

Vinte dias depois de dar à luz a sua Sarah Maria, Rachel estava de volta ao escritório, com um miniberçário montado ao lado de sua mesa. “Acho importantíssimo as mulheres tirarem licença-maternidade, mas aquele era o momento que me propus a realizar”, esclarece a executiva, que não trabalha ou atende o celular quando está em casa e leva a filha de três anos sempre que pode em suas viagens, inclusive quando morou por alguns meses em Boston para fazer um curso de liderança em Harvard.

“Procuro ser muito qualitativa com o tempo em que passamos juntas. Você não vai vê-la no playground aos finais de semana com a babá. Concilio a vida de mãe e de negócios sem culpa. Às vezes você vai dar o seu melhor, às vezes vai dar 20%. É uma questão de escolha”, explica Rachel, sem desacelerar os projetos de expansão da Pandora, que já conta com mais de 70 unidades no Brasil e aumenta as vendas mesmo no atual período de retração econômica. No entanto, todos esses números e desafios desaparecem quando ela chega em casa à noite e Sarah Maria a chama para ir até o cantinho da oração rezar. Catequista de crisma há mais de 15 anos, ela conta que fica mais calma ao lado da filha e já está de volta ao processo de adoção, ansiosa para agregar mais uma joia à família.

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Crédito

Março de 2016, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra

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