Mauricio de Sousa, uma criança de 80 anos

“Criança gosta de criança”, conta Mauricio de Sousa, que começou a carreira desenhando tirinhas adultas para o jornal Folha da Manhã, atual Folha de S.Paulo. Ele logo percebeu que seus fãs eram as crianças que bisbilhotavam o jornal dos pais e, meio sem querer, acabou migrando para o universo infantil. Agora, no final de outubro, o desenhista comemora 80 anos e não dá sinais de que está diminuindo o ritmo. Ele trabalha na publicação de livros, com o objetivo de atingir o mesmo número de vendas dos gibis. São quase três milhões de revistinhas vendidas por mês. A meta é ambiciosa, mas não dá para duvidar do gênio dos quadrinhos.

 

 

Um pequeno toldo azul e uma imagem do Bidu do lado de fora de um antigo prédio de janelas quadriculadas dão um pouco de vida à famosa Rua do Curtume, localizada no bairro da Lapa, em São Paulo. É ali que toda a magia da Mauricio de Sousa Produções acontece. O crachá com a imagem do Cascão dá acesso aos bastidores de seis andares, que reúnem roteiristas, desenhistas, ilustradores, além de responsáveis por licenciamento de produtos, desenhos animados e tantos outros projetos ligados à cinquentenária Turma da Mônica.

 

Os corredores exibem fotos clássicas de personagens com frases em diversos idiomas, esculturas e enormes paredes pintadas com as invenções de Mauricio. Até mesmo o pacotinho de adoçante e açúcar da sala de reuniões é personalizado com a carinha do Bidu e da Mônica. Mas a melhor parte desse “parque de diversões” é, claro, a sala do criador. São tantos bichinhos de pelúcia e miniaturas da Turma da Mônica que o próprio Mauricio ironiza, dizendo que a sala parece um bazar. O que rouba a cena são os quadros com releituras de pintores famosos de séculos passados. Tem o Cebolinha como o flautista de Manet, a Mônica posando de Mona Lisa, Rosinha e Chico Bento fazendo a sesta de Van Gogh.

 

Em sua mesa de trabalho, há uma pilha de exemplares de livros lançados na última Bienal do Rio de Janeiro, que aconteceu no início de setembro e homenageou ele próprio. Mauricio vai logo mostrando “As Clássicas Aventuras das Revistas Bidu e Zaz Traz!”, um volume grosso de quase 300 páginas. Com um sorriso no rosto, ele diz que o livro tem as primeiras histórias escritas e desenhadas por ele mesmo entre os anos de 1960 e 1961. “É da época em que eu fazia tudo sozinho. Só tem história politicamente incorreta. Vai fazer um megassucesso!”, comenta, entre risadas. A coletânea é uma comemoração aos seus 80 anos, que serão festejados no dia 27 de outubro.

 

É difícil acreditar que Mauricio esteja fazendo 80 anos. Com a camisa de manga comprida dobrada e calça jeans, ele parece o mesmo de 30 anos atrás. O passo está um pouco mais lento e a voz mais calma, mas o raciocínio continua a mil. Hoje em dia, o desenhista se dedica à revisão e à leitura dos roteiros feitos por sua equipe e a escrever livros — muitos livros. “Vou escrever cada vez mais. Passei muito tempo só fazendo gibi. Agora, minha ideia é, em 10 anos, vender o mesmo número de livros e gibis”, garante. A meta é ousada: são quase três milhões de gibis por mês, o que representa a grossa fatia de 83% das vendas de revistas em quadrinhos no Brasil.

 

O começo dos 80 anos

Diante de um império que não sai de moda, divertindo e educando quatro gerações, resta agradecer por seu sonho de criança não ter se tornado realidade. No início da década de 1940, Mauricio queria mesmo era ser aviador. Com seis anos e morando ao lado do Aeroporto Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo, ele espiava aviões subindo e descendo, imaginando o dia em que estaria pilotando uma aeronave. Enquanto esse momento não chegava, ele desenhava aviões e construía aeromodelos em caixas de sapato. O hangar e o aeroporto fictícios ficavam atrás do sofá da sala. “Fiz muitos aviões. Nem sei dizer quantos. Mas eles ficavam ali, parados, sem vida. Aí tive uma ideia. Fui ao jardim de casa e peguei um monte de caracóis para colocar nas cabines. Eram meus caracóis pilotos!”, lembra.

 

Essa foi sua época com um quê de Chico Bento. Quando criança, Mauricio chegava da escola, tirava os sapatos e só voltava a calçar qualquer coisa que fosse no dia seguinte. Corria descalço pelo mato, caçando escorpião na companhia do seu cachorrinho Cuíca – o mesmo que inspirou a criação do Bidu anos depois. A avó era uma contadora de histórias das boas; o avô, um exímio contador de lorotas. Já a mãe era poetiza de versos caipiras e o pai um romântico parnasiano. Mas o prêmio das melhores histórias ia para o bisavô, que vivia narrando suas aventuras no transporte de ovos de Mogi das Cruzes para vender na capital paulista. Quantas e quantas vezes os ovos se arrebentaram no meio do caminho porque uma onça assustou a tropa e os burros. “Tinha um monte de Chico Bento na minha vida”, diz.

 

O desenhista amador decidiu seguir carreira na área aos 19 anos. Colocou sua arte embaixo do braço e bateu à porta da Folha da Manhã, atual Folha de S.Paulo, atrás de uma vaga de ilustrador. Recebeu um não do chefe da arte do jornal e um pseudo-sábio conselho: “Desenho não dá futuro, nem dinheiro. Melhor fazer outra coisa da vida”. Mauricio acabou entrando como revisor do jornal, conquistando uma vaga de repórter policial um tempo depois. “Às vezes, quando não conseguíamos foto do bandido ou do local do crime, eu ilustrava a cena. Isso abriu os olhos da redação para o meu lado desenhista”, conta Mauricio, que começou a publicar uma série de tiras em quadrinho do cãozinho Bidu e do Franjinha, seus primeiros personagens, criados em 1959.

 

Gangue do Mauricio

Nos anos seguintes, outros personagens ganharam vida no papel: Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho, Horácio, Raposão e Astronauta. Até o dia em que um colega do jornal fez a inteligente pergunta: “Cadê as mulheres na sua história?”. “Ih, é mesmo. E agora?”, questionou-se Mauricio, percebendo que a falta de personagens femininos tinha um motivo simples e quase universal: ele não sabia como as mulheres pensavam. “Então me ocorreu que eu conhecia, sim, minhas filhas, na época ainda pequenas. A Mariângela, a primeira — ela não gosta que diga a mais velha —, a Mônica e a Magali. Percebi que se eu copiasse as características delas, de vizinhos e amigos, eu preencheria qualquer personagem com humanidade. Todos foram feitos com base em pessoas que existem. Assim, você cria reações naturais às situações da vida. É isso que faz com que pessoas de diferentes idades gostem das histórias”, revela.

 

Todos os personagens têm seu modelo vivo. O Cebolinha foi inspirado em um amigo da infância, que trocava a letra “R” pelo “L”. Nenhum fonoaudiólogo resolveu a questão e, até hoje, o mestre de obras que mora em Mogi das Cruzes, Seu Luis, mais conhecido como Cebola, continua falando “elado”. Como se pode imaginar, o Cascão era um integrante da turma um pouco avesso à higiene. Além de amigos e vizinhos, os parentes são uma eterna fonte de inspiração. São quatro casamentos, 10 filhos, 11 netos e três bisnetos. Além da dupla Mônica e Magali, todos os outros filhos viraram personagens: Maria Cebolinha, Marina, Nimbus, Do Contra, Professor Spada/Dr. Spam, as gêmeas Vanda e Valéria e, em 2015, o caçula Marcelinho entrou para a turma do bairro do Limoeiro.

 

Depois de incluir os filhos nas histórias, está chegando a vez dos netos. “Observo muito o comportamento da criançada. Tenho um neto muito levado. Por onde passa, quebra coisas e deixa tudo fora do lugar. O irmão e os primos dele estão sempre falando: ‘Não fui eu!’. Esse vai ser o nome do personagem: o ‘Não fui eu’”, brinca o desenhista, revelando que, na sua visão, todas as crianças são personagens.

 

De olho no futuro

Mauricio de Sousa nem pensa em se aposentar. Se, porventura, esse dia chegar, ele não se preocupa com o futuro. Afinal, não falta mão de obra para levar seus projetos adiante. Dos 10 filhos, sete trabalham na empresa. “Não obriguei nenhum deles a virem para cá. Eles foram se encaixando, aprendendo e estão fazendo um trabalho bonito”, orgulha-se. A desenhista Marina, das histórias em quadrinhos, criada em 1995, é, de fato, o braço direito e esquerdo do pai na vida real no setor de roteiros e arte. Mônica cuida da direção comercial, Mauro está à frente do teatro, Mauricio Takeda, de jogos, Mauricio Spada na área de informática, Vanda e Valéria no administrativo. Fora do escritório, a família toda mora no mesmo bairro — à exceção de Magali que, nas palavras de Mauricio, “cismou de viver” em Belo Horizonte. “Deve ser por causa da comida mineira!”, completa.

 

Na rotina frenética de Mauricio, há vários planos futuros ocupando seus pensamentos. Um deles é a Turma da Mônica Adulta, que será uma história cronológica em que os personagens envelhecerão. “Na verdade, os personagens não envelhecem. Eles evoluem. O que estiver acontecendo no mundo naquele momento será levado para a história. Vai dar um trabalho danado, mas acho que lanço daqui a uns três anos”, explica o desenhista, contrariando a tendência de eterno aniversário de 7 anos dos personagens da Turma da Mônica e dos 15 anos da Turma da Mônica Jovem. Em 2013, a empresa também lançou a animação Mônica Toy, com traços 2D e linguagem para adulto; e a revista Chico Bento Moço, narrando a vida do personagem aos 18 anos, na Faculdade de Agronomia. Seja lá qual for o novo projeto, já está mais do que claro que Mauricio e seu time têm dedo de ouro. A magia de suas histórias ainda vai atravessar várias gerações e fazer parte da alfabetização de muitas crianças.

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Fotografia Divulgação

Julho de 2016, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra