O tempo de Fernanda Lima

 O sonho da apresentadora dos programas “SuperStar”, que estreia a terceira temporada agora em abril, e “Amor & Sexo”, que encerra a nona e última temporada também neste mês, é ter tempo. Valorizar o silêncio, fazer nada sem se sentir culpada, não ficar ansiosa por algo que não está vivendo. “O que quero mesmo é ter tempo. Descansar, ouvir passarinho, ficar com os filhos, viajar”.

Bem afastada do centro e do agito de Porto Alegre, a casa de dona Teca e seu Cleomar exibia um jardim com árvores carregadas de ameixa amarela. “Era um mundo particular”, lembra a filha caçula do casal, Fernanda Lima. Uma das salas era vazia, apenas com um tapetão no meio, acolhendo as brincadeiras de Fernanda e seus dois irmãos mais velhos. “Revi a casa anos depois e descobri que era só uma saleta sem móveis. Parecia tão grande!”, conta a apresentadora de 38 anos, com seu sotaque gaúcho, mesmo depois de mais de 20 anos morando fora do Rio Grande do Sul.

 

As últimas duas décadas foram uma soma da rotina frenética que a fez alcançar todo o reconhecimento que tem hoje. Revezando os papéis de modelo, atriz e apresentadora, Fernanda começou a trabalhar cedo e passou por todas as dificuldades típicas de uma adolescente que vai tentar a sorte como modelo em outro país. “Quando fui para o Japão, senti um choque cultural bem grande. Vivia de uma semanada da agência de modelos e estava sempre preocupada se ia ter grana até o final de semana. Eu pensava que, mesmo se ficasse pobre, iria querer conhecer o mundo e as pessoas”, lembra a gaúcha, que também passou uma temporada em Milão, na Itália.

 

De volta ao Brasil e então morando na capital paulista, Fernanda cansou da vida de tentativas e voltou para Porto Alegre. “Eu não aguentava mais. Fui embora, passei no vestibular no interior de Porto Alegre para cursar publicidade e fui ficar com a minha família”, revela. Mas o universo já havia traçado outros planos. Um mês depois da decisão, ela foi chamada para fotografar uma capa da Revista Nova. Assim que a publicação chegou às bancas, em meados dos anos 1990, a modelo sentiu o primeiro indício do que seria a famosa Fernanda Lima. As ideias da faculdade de publicidade e do retorno para o sul ficaram para trás. “Do dia para a noite, virei linda, maravilhosa e todo mundo queria trabalhar comigo. Mas eu era igual. A mesma pessoa. Foi uma foto e tudo aconteceu para mim”, conta.

 

Desde então, ela passou por passarelas, campanhas publicitárias, programas de televisão — o primeiro foi o extinto “Mochilão”, da MTV — e novelas, até se encontrar na função de comunicadora, dando voz às suas próprias ideias. Tudo poderia ser diferente se ela tivesse estudado, trabalhado e construído uma família no Rio Grande do Sul. “Poderia ter dado certo lá também e eu teria desde sempre a qualidade de vida que busco tanto hoje”, reflete. Inclusive, esse é uma tema que Fernanda abordaria em um programa de televisão: qualidade de vida. “Me interessa o assunto por esse lado do ‘ser’, não do ‘ter’”, afirma a apresentadora, mudando de ideia segundos depois: “provavelmente não vai ter nenhuma audiência porque todo mundo quer ‘ter’, não ‘ser’”, filosofa rindo.

 

A beleza pode ter aberto portas na carreira, mas a apresentadora tem opiniões bem embasadas e transita por diferentes assuntos. Durante a entrevista, Fernanda expõe seu ponto de vista sobre os movimentos feministas e afirma que a sociedade tem uma grande dívida com a mulher que ficou calada por anos, sem direito a voto, ao prazer ou a usar minissaia e batom vermelho. “Temos uma dívida com essas pessoas, inclusive homossexuais, travestis e transgêneros. Muita gente morreu para podermos falar abertamente sobre isso. Pode parecer exagero, sim, porém só para quem desconhece os fatos. Procuro falar de maneira amorosa sobre esses assuntos. Afinal, se sairmos atacando pedra em todo mundo que errou, vamos continuar errando”, opina.

 

Família, trabalho e valores

Os assuntos mais polêmicos são expostos com a mesma doçura com que Fernanda fala das lembranças da casa da infância em Porto Alegre. Os finais de semana que reuniam a família ao redor da piscina, os churrascos e as festas de aniversário com bolos feitos pela avó ficaram na saudade, mas acabaram definindo suas escolhas durante a gravidez. “Acho que copiamos os padrões do tempo de criança, mesmo que inconscientemente”, compara. Ao saber que estava esperando o nascimento de gêmeos, que completam oito anos de idade em abril, a apresentadora foi viver em uma casa na isolada Praia da Macumba, na zona oeste do Rio de Janeiro, junto com o ator e também apresentador Rodrigo Hilbert.

 

O casal curtiu a casa, a piscina e o sossego até os filhos João e Francisco completarem cinco anos. Nessa época, decidiram diminuir o isolamento e mudar a vida para um apartamento no burburinho do Leblon, facilitando a logística da escola das crianças e da própria Fernanda, que está cursando pós-graduação em Arte e Filosofia na PUC-Rio. “Foi uma boa escolha. Estou bem feliz. Ando de bicicleta o dia inteiro para resolver minhas coisas. Busco tranquilidade acima de tudo”, conta a modelo, que começou a carreira aos 14 anos, descoberta nas ruas por um fotógrafo.

 

Hoje, depois de morar fora como modelo, apresentar programas na MTV, RedeTV! e Globo, além de atuar em duas novelas globais, ela sonha com a plenitude do tempo. “Não tenho muito mais sonhos. Estou muito feliz na minha carreira e com o que faço hoje. O que quero mesmo é ter tempo. No fim das contas, passamos a vida trabalhando, estressados com compromissos e obrigações. Não sobra tempo para lazer ou para usufruir do ócio”, afirma a gaúcha radicada no Rio, sempre se transportando para um “lugar” mais tranquilo. Esse “lugar”, como ela define, é dentro de si mesma e reserva a tal sensação de fazer nada sem se sentir culpada.

 

Fernanda é adepta de meditação e yoga. Depois de anos de prática, ela aprendeu o caminho para acalmar a mente sempre que se sente transtornada ou ansiosa. É só esticar o tapete e mergulhar no silêncio. Tais momentos já foram mais frequentes na rotina, porém ela continua buscando pequenos intervalos entre as demandas dos gêmeos. “Se contar das oito da manhã até o meio-dia, acho que os dois me chamam umas 90 vezes”, ri a mãezona, aproveitando para dizer que não planeja a chegada de um terceiro filho. “Às vezes penso nisso, mas dispenso. Talvez eu prefira me dedicar mais a eles do que ter um bebê”, pondera.

 

Formada em jornalismo pela FIAM, em São Paulo, Fernanda se frustra ao não vislumbrar um mundo melhor no futuro dos filhos. “Acredito que nosso país esteja caminhando para a involução. Tenho um trabalho que me permite contratar motorista, cozinheira e babá, mas essa não é a realidade da maioria das pessoas. Infelizmente. O ideal seria trabalhar e cuidar da família sem precisar de tanta ajuda”, diz ela, cumprindo sua parte na educação. “Converso com meus filhos e rezo para o papai do céu todos os dias para educá-los de uma forma mais humanista e fazer com que eles entendam a dificuldade do outro e tenham compaixão pelas pessoas”, afirma.

 

De um ano pra cá, os pequenos começaram a se interessar por “Amor & Sexo”. Apresentadora e roteirista do programa de auditório que encerrou a nona e última temporada no dia 2 de abril, Fernanda optou por contar naturalmente para eles o que faz no trabalho. “Isso vai facilitar para que eles se tornem adultos mais esclarecidos e sem tantos preconceitos. Explico que uma mulher pode ter pênis porque nasceu menino, mas se enxergava como menina. Falo que isso é algo que acontece dentro da pessoa, não uma decisão. O mundo é um grande arco-íris com pessoas de todos os jeitos, cores e gostos. Óbvio que eles ainda não entendem. Depois de dois dias me perguntam de novo sobre o mesmo assunto na tentativa de vir alguma novidade!”, conta.

 

Essa é a missão de Fernanda no programa: desmitificar assuntos tabus. “Temos que falar sobre isso, debater e quebrar essas amarras, porque sexo é natural”, enfatiza. Ao longo dos sete anos no comando da atração, ela abordou com humor e leveza uma série de assuntos considerados “cabeludos”. “Quanto mais se fala sobre sexo, mais natural fica. Estamos expondo tudo o que nos propomos sem máscaras e, ainda assim, as pessoas não trocam de canal. Pelo contrário. A audiência aumenta durante o programa”, afirma.

 

“Amor & Sexo” sai do ar, mas Fernanda continua na televisão à frente de “SuperStar”, ao lado da apresentadora Rafa Brites, no programa que estreia uma semana depois. Exibido aos domingos à tarde, a atração promove uma disputa de talentos de bandas nacionais à frente do trio de jurados, composto por Daniela Mercury, Sandy e Paulo Ricardo. “Gosto do programa por oferecer uma oportunidade para bandas que lutam tanto para serem conhecidas”, afirma, lembrando que se envolve menos na produção se comparado ao “Amor & Sexo”, no qual era também roteirista. “Minha vida fica um pouco mais tranquila durante esse período. Aproveito para comer e dormir melhor, além de ficar mais em casa”, comenta Fernanda, focando no sonho de ter mais tempo.

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Publicado em:

Fotografia Ale de Sousa

Abril de 2016, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra