Maria Dalva Mendonça e sua receita mineira de sucesso

Faz quase 30 anos que os pães de queijo da Dona Dalva, como a mineira da cidade de Bom Despacho é conhecida, viraram bolinha congelada e não pararam mais de se multiplicar. A história da empresa familiar, que hoje produz duas mil toneladas de pão de queijo por mês e já exporta para nove países, teve altos e baixos, o que inclui a venda para uma multinacional, seguida da compra de volta depois de 10 anos. Aos 74 anos, Dona Dalva não pensa em diminuir o ritmo do negócio que divide com dois de seus quatro filhos e um sócio externo. Não à toa, é sobre esse capítulo empreendedor de sua história que ela mais gosta de contar.

  

“Nasci em 1990. Foi quando minha vida começou”, brinca Dona Dalva, tentando driblar a conversa sobre os 47 anos que antecederam a criação da Forno de Minas. Mas não teve jeito. Com o empurrãozinho da filha mais velha, Hélida, que está ao seu lado na operação desde o primeiro dia, a senhora mineira dá um sorriso e volta para o ano de 1942 na cidade de Bom Despacho, a 160 quilômetros de Belo Horizonte, onde morou até os 14 anos de idade.

 

“Fui criada pela minha avó. Eu era a terceira filha e meus pais compraram uma fazenda enorme em João Pinheiro (a 400 quilômetros de Belo Horizonte). Eles se mudaram para lá e fiquei para trás. Foi bom ter ficado. Não reclamo disso, não”, garante Dona Dalva, lembrando que as famílias eram numerosas naqueles tempos. Quando ela finalmente se mudou para João Pinheiro, encontrou oito irmãos — outros quatro ainda nasceram depois –, que manifestaram certa implicância com a recém-chegada. “Claro que eu devia ser chata. Criada com avó. Mimada!”

 

A emancipação veio dois anos depois, quando casou com Hélio e foi viver a vida de fazenda aos 17 anos. “Eu fazia biscoito, pão de queijo, requeijão, rapadura. Pescava na beira do rio”, relata Dona Dalva, olhando para trás e concluindo ser “a Amélia de verdade”. “Eu preparava a listinha de compras e entregava para o motorista. Nunca tinha entrado em banco”, afirma a chefe da família, sem imaginar que um dia viraria empreendedora. Os filhos nasceram e ela retomou os estudos para concluir o ensino fundamental.

 

“Eu queria melhores oportunidades para os meus filhos. Por isso, decidimos mudar para Belo Horizonte”, lembra. Era 1972. Apenas um ano depois da mudança para a capital, a vida resolveu dar uma daquelas reviravoltas difíceis de entender. Um acidente de carro na estrada de terra entre João Pinheiro e Patos de Minas levou seu marido embora. De um dia para o outro, Dona Dalva se viu sozinha, com 31 anos, mãe de quatro filhos – Hélida, de 12, Haida, 11, Hélder, 8, e a caçula Hérica, com 4. Sem profissão formal e sem documento — afinal, nunca precisou de burocracias, como CPF —, ela precisou se reinventar.

 

“Deixei a Amélia em casa e saí fora”, brinca Dona Dalva agora, anos depois, feliz com o sucesso e diante de uma cestinha de pães de queijo assados para a entrevista. Mas aqueles tempos não foram dos mais acolhedores. “Não gosto nem de lembrar. Fiquei meio maluca. Cai tudo de repente e desmorona no chão. Fiz tratamento com psiquiatra. Foram uns cinco anos até acertar tudo”, conta Dona Dalva, conquistando documento, carteira de motorista e certificado de conclusão do curso técnico em contabilidade.

 

O seguro de vida do marido, somados aos valores recebidos pela fazenda vendida, foram o suficiente para a família começar a investir em imóveis. Assim, meio sem querer, ela foi entrando na área imobiliária. Impulsionada pelo médico, que insistia que era hora de arranjar um emprego, Dona Dalva tirou a carteira profissional de corretora, o Creci, comprou uma Brasília amarela e entrou para o time de uma pequena corretora de Belo Horizonte. “Você era campeã de vendas, né, mãe?”, comenta a filha Hélida, orgulhosa.

 

O sucesso a levou para uma corretora maior, com 90 funcionários – e apenas Dona Dalva de mulher. “Quando entrava imóvel novo para vender, o pessoal nem pensava em conhecer e eu já estava vendendo. Sempre fui calada e observava muito. Não gosto de corretor que fica empurrando. Eu fazia a ficha do cliente e só mostrava aquilo que eu sabia que ele queria. Aí vendia”, explica a ex-corretora, que aproveitou o boom do mercado imobiliário para pagar escola particular e cursos extracurriculares para os filhos, como inglês, balé, natação e violão. Até intercâmbio nos Estados Unidos eles fizeram.

 

Em 1989, era a vez de Hélder voltar do seu intercâmbio. O filho chegou com a ideia fixa de abrir uma empresa de comida congelada, o que havia salvado suas refeições nos Estados Unidos. O negócio podia dar certo no Brasil também. “Ele convenceu minha mãe a montar um restaurante de comida executiva”, diz Hélida, explicando que o almoço servia o famoso PF, o “Prato Feito”, mas o foco eram os pães de queijo vendidos para o café da manhã e o lanche da tarde. “A comida não me interessava”, afirma Dona Dalva. “O que eu queria mesmo era testar o pão de queijo. Mas tinha que valorizar o ponto porque eu ia passar pra frente depois.”

 

O pão de queijo foi sucesso. Os escritórios ao redor ligavam com horas de antecedência para reservar uma determinada quantidade. Depois dos nove meses em que mais trabalhou na vida, Dona Dalva passou o negócio adiante. O filho Hélder não demorou para vir com uma nova ideia: e se eles montassem uma empresa de pão de queijo congelado? Dona Dalva e a filha Hélida viraram sócias, compraram uma Fiorino, um freezer, uma masseira e uma máquina de embalar, e alugaram uma pequena loja na praça de alimentação de um shopping na Zona Sul da capital mineira.

 

“Por isso que digo que nasci depois de 1990!”, reforça Dona Dalva. Um ano depois, o espaço da loja já estava pequeno para o volume da produção, que não parava de crescer. Claro que os tropeços fizeram parte da história. A primeira embalagem comprada era igual à de macarrão e não resistia ao congelamento. O pacote quebrava, exigindo outro plástico por fora sem logomarca até a nova versão chegar. O queijo era outro desafio. Hélida chegava com a Fiorino carregada, mas Dona Dalva dispensava quase todos por não serem perfeitos para o pão de queijo. “A textura tem que ser de Queijo Canastra”, esclarece.

 

O primeiro cliente foi a rede de supermercados Carrefour e logo o negócio expandiu por Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Hélida e Hélder sempre chegavam para a reunião com um possível novo cliente com o pão de queijo congelado e uma cestinha do produto assado. O sabor irresistível quase sempre garantia um novo ponto de venda. Para ampliar a fabricação, a solução foi alugar alguns galpões e um container refrigerado em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Nessa mesma época, Hélder deixou sua concessionária de carros e entrou para a sociedade.

 

Mais um ano se passou e os galpões já não serviam mais. “Vamos ter que construir uma fábrica”, avisou Hélder. Era 1992. O quarto sócio entrou para a operação, Vicente Camilloti, e a planta saiu do papel. “Aí tinha tudo. Túnel de congelamento contínuo, câmera fria, vestiário e refeitório para os colaboradores”, conta Dona Dalva. A mudança aconteceu em 1995. “Nem inauguramos a fábrica. O espaço era programado para fazer 10 toneladas por dia e já tínhamos demanda para 20. Fizemos outra expansão e já precisávamos de geradores, uma câmera fria maior, e outra maior, e outra maior”, lembra a fundadora.

 

O problema do fornecimento do queijo continuava atrapalhando o aumento da produção. Em vez de sentar e reclamar, os sócios arrendaram um laticínio em Conceição do Pará, a 120 quilômetros da fábrica, e produziram seu próprio queijo. O crescimento vertiginoso gera até curiosidade. Por que a Forno de Minas deu tão certo? “A qualidade do produto e o trabalho árduo, mas gostoso, que não ficou pesado”, responde Dona Dalva. A filha completa: “tínhamos dificuldades, mas conseguimos superar. Também teve a questão de não depender de um só cliente. Começamos a trabalhar muito com food service. Dá mais trabalho, porém é possível pulverizar.”

 

A operação ia tão bem que chamou a atenção da multinacional Pillsbury, unidade de alimentos da holding Diageo. Em 1999, os quatro sócios venderam o controle acionário e saíram da operação, mantendo apenas o laticínio para fornecimento exclusivo do queijo. “Nós não vendemos. Fomos comprados”, corrige Dona Dalva. “Foi um preço tão bom que não tinha como não vender”, complementa Hélida, opinando que o real interesse na compra era a aquisição dos 15 mil pontos de venda da Forno de Minas. “Não acreditava que ia vender nada, não”, comenta Dona Dalva, que chegou a adoecer durante esse período.

 

Mas a venda foi concluída e a vida seguiu. Além de modernizar o laticínio para seguir com o plano de crescimento proposto pela multinacional (o que aconteceu na prática foi exatamente o contrário), Hélder e Hélida começaram a investir na construção de shopping centers, Haida montou uma loja de presentes finos, Hérica foi fazer doutorado fora e Dona Dalva seguiu empreendendo junto com os filhos. Pouco a pouco, as notícias sobre a falta de qualidade do pão de queijo da Forno de Minas começaram a chegar. “Eu ficava chateada quando as pessoas falavam: ‘nossa, mas o pão de queijo tá horrível’”, lembra Dona Dalva.

 

A General Mills, que nesse meio tempo havia comprado a Pillsbury, fechou a operação da Forno de Minas em 2009. Os funcionários foram demitidos, os portões da fábrica fechados, a distribuição para os clientes cancelada e as máquinas pararam. Contrariando os conselhos de quem estava ciente de como andava o faturamento da empresa naquela época, os quatro decidiram comprar tudo de volta. “Vocês são doidos? Isso aqui dá prejuízo todo ano”, dizia um gerente que acabara de ser demitido. “Mas tem que comprar. Como que não ia comprar?”, questiona Dona Dalva. “A volta foi difícil. Deu frio na barriga”, lembra Hélida. “Eu sabia que ia dar conta. Era só botar qualidade de novo. Fiz uma vez, faço de novo”, apostava a dona da famosa receita.

 

Os colaboradores foram chamados de volta, bem como os ingredientes originais da receita. “São os mesmos que todo mundo usa: polvilho, queijo, ovos, leite, manteiga e sal. É só fazer com capricho. A gente come o tempo todo”, garante Dona Dalva. Os consumidores voltaram a comprar o pão de queijo e o antigo problema da constante necessidade de expansão voltou. A fábrica de Contagem está pronta para ultrapassar as fronteiras do muro. Além do pão de queijo, que representa 80% da operação, a Forno de Minas também tem folhados, waffles, empanadas, tortinhas, massas frescas recheadas e congeladas — que homenageiam a empresária com o nome Mamma D’alva —, entre outros produtos.

 

“Vamos lá ver a fábrica?”, me convida Dona Dalva. “Só não posso te acompanhar porque tenho que participar de um almoço de comemoração do prêmio que acabamos de receber. Mas te encontro depois para almoçarmos juntas”, se desculpa. Ela havia acabado de receber a notícia da conquista do “Prêmio Valor Carreira – As Melhores em Gestão de Pessoas no Brasil”. A empresa já recebeu diversas outras premiações, distribuídas entre Recursos Humanos, Vendas e Top of Mind. A fundadora desse império mineiro me encontra no refeitório coletivo, onde almoça todos os dias junto aos colaboradores. “Dona Dalva é mito”, dizem. É fácil entender o porquê.

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Publicado em:

Fotografia Fernando Lutterbach

Dezembro de 2016, Avianca em Revista

Fotógrafo Flavio Terra

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